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O Nascimento de AFRODITE
- Enviado por
Priscila Manhães
Algo mais profundo jaz nas
origens míticas do envolvimento de Afrodite com homens fálicos: é o
fascinante mito grego do seu nascimento. A lenda que chegou até nós por
meio de Hesíodo provém, na realidade, de épocas patriarcais. Isso é
importante, pois reflete precisamente o tipo de problema psicológico
coletivo com o qual ainda nos debatemos hoje.
O relato que Hesíodo faz do nascimento dos Deuses mostra Afrodite nascendo
dos órgãos genitais decepados de Ouranos, o Pai Celeste. Eis aqui uma
ligação inevitável com a sexualidade masculina que poderia explicar a
atração de Afrodite por tudo o que é fálico. Podemos também dizer que ela
traz em si algo do excesso ou superabundância da energia sexual de seu
pai.
O mito diz que Cronos, filho de Gaia, a Terra Mãe, lançou no oceano os
órgãos genitais arrancados de Ouranos. É chegado o tempo (Cronos) de
tornarmos a tirania dos céus, o domínio do mental, impotente. Cronos era
um Deus da agricultura, de modo que sua sabedoria e poder pertencem à
terra, juntamente com sua mãe, Gaia. Na realidade, porém, ele ajuda a
derrubar o pai tirânico não apenas para a terra, mas para a água. Vemos
aqui o desenrolar de um drama cósmico dos elementos: terra, ar e água (o
elemento ausente, fogo, será mais tarde fornecido pelo Deus da Guerra,
Ares, e pelo marido ferreiro de Afrodite, Hefaístos). O resultado da
supressão da terra pelo ar é um novo nascimento vindo da água - Afrodite.
A água costuma representar sentimentos e empatia na linguagem mitológica e
onírica.
Como a maioria dos pais tirânicos, Ouranos passa a temer que seus filhos
também queiram um pouco de ação, de modo que procura impedir que nasçam.
Mas assim perde completamente contato com a Mãe Gaia, a consciência da
terra e do mistério da procriação. Seu castigo é perder a própria
felicidade, a capacidade de gerar algo novo. A consciência celeste
torna-se impotente.
Mas devemos reparar bem no que acontece com os órgãos genitais perdidos,
que se transformam no oposto dele. De uma tirania encarquilhada,
esfacelante e masculina nasce uma beleza jovem, inocente e feminina. É um
milagre, o milagre da reversão dos opostos psíquicos. Quando ocorre uma
inversão tão radical assim, significa psicologicamente que há uma
necessidade enorme de compensação. Hoje, como na Grécia Antiga, a
abundante sexualidade de Afrodite aparece como uma reação a um controle
mental excessivo vindo de cima por parte do masculino.
Significa também que o patriarcado não pode pretender controlar a natureza
essencialmente expansiva da energia feminina. Suprima-se a fecundidade da
terra (Gaia) e ela ressurgirá novamente no tempo (Cronos) como uma energia
erótica vibrante (Afrodite).
Para mérito eterno dos gregos, eles jamais se dispuseram a lançar fora
suas divindades femininas em favor de um único Deus Pai, como fizeram os
primeiros judeus e cristãos. E Afrodite pôde permanecer, junto com as
outras Deusas, continuando a ser muito amada - embora passasse a ocupar
uma posição um tanto ambígua nas margens da sociedade urbana grega.
Na Grécia, Hera, que rege o casamento, foi a Deusa que contou com a maior
aprovação social. Todavia, os mitos indicam que seu casamento olimpiano
com Zeus nunca foi feliz. Não obstante, como esposa do supremo patriarca,
Hera permaneceu simbolicamente a mais próxima do centro de poder.
Embora alguns possam considerar esta uma honra dúbia, Afrodite veio a
reger as relações extramaritais para os gregos. Mas pelo menos ela era
conhecida e celebrada, e não denegrida e exilada como a Lilith do mito
judaico. É possível que os gregos tenham reconhecido que uma sociedade
belicosa como a deles precisava de uma válvula erótica de escape e estavam
dispostos a ser francos a respeito - o puritanismo ainda não havia sido
inventado. Mas é igualmente possível que eles sabiamente tenham
reconhecido em Afrodite os resquícios de uma linguagem muito mais antiga
do comportamento social humano, uma linguagem ao mesmo tempo matriarcal e
polígama.
A Sexualidade de AFRODITE
Se um antropólogo fosse
estudar os tabus culturas, presentes na programação das redes de televisão
americanas, uma das coisas notáveis que haveria de observar é a diferença
de tratamento dado à violência e ao sexo. Centenas de vezes ao dia, nosso
programas mostram tiroteios, assassinatos, espancamentos e brutalidades de
toda espécie. Embora haja um certo controle da violência na TV, este é
muito menos evidente do que o controle consciencioso das cenas sexuais.
Seios nus são impensáveis na televisão americana, e o ato sexual em si,
embora às vezes sugerido, nunca é mostrado. É como se a nossa cultura
tivesse um apetite insaciável de violência e um verdadeiro pavor do prazer
sexual.
O que é tão perigoso na sexualidade de Afrodite? Por que ela é tantas
vezes retratada como sedutora, uma bruxa, uma mulher fatal? Para os
gregos, ela era a feiticeira Circe, fascinando os companheiros de Ulisses
e transformando-os em porcos. Para os primeiros padres cristãos, a mulher
sedutora era o próprio epítome do pecado. Na Idade Média, havia as
perigosas náiades, ou ninfas da água, que fascinavam os cavaleiros
errantes e os desgraçavam até a morte. Mais recentemente, tivemos uma Anna
Karenina arrastando seu amante, Viroski, à abjeção social e ao exílio, ou
uma Hester Prynne marcada com a letra escarlate. Hoje em dia, as novelas
de televisão estão repletas de sereias cavadoras de ouro que vivem
arruinando reputações com seus estratagemas.
E a isca é sempre o fascínio sexual, a que os homens parecem ser
totalmente impotentes para resistir. Os gregos racionalizavam a sua
paranóia conferindo a Afrodite uma cinta mágica capaz de desarmar todos os
homens e deuses que a ameaçassem.
Todavia, há algo altamente suspeito nesses exemplos – em todos eles, os
homens são apresentados como vítimas. Vítimas dos seus próprios
sentimentos não admitidos talvez, mas certamente não vítimas efetivas da
mulheres. Isso tudo cheira muito a culpa deslocada. Pois, se houve algum
grupo social vitimado no Ocidente Patriarcal, foram as mulheres.
Existem, a nosso ver, dois fatores atuando: o medo que os homens têm de
perder o poder e um horror ao corpo. A questão do poder remota à grande
passagem da família matrilinear para a família patrilinear há muito, muito
tempo atrás. A questão do corpo é mais recente, tendo originado na
propensão ascética do Cristianismo.
Fonte: A Deusa Interior,
de Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger. Ed. Cultrix
Afrodite - Por
Priscila Manhães
O mito de origem da Afrodite
grega a liga indiscutivelmente ao mar. A lenda mais recente (século VIII
a.C.), de Hesíodo, relata que ela nasceu da espuma do mar, fecundado pelos
testículos de Cronos. Porém, uma versão mais antiga a faz nascer na Ilha
de Citera, onde era cultuada com o nome de "Citeréia" (nascida em Citera).
Outros famosos centros antigos estão nas ilhas de Chipre (conhecida como "Ciprogênia"),
Cós (conhecida como "Euplóia") e Sicília. Tudo isso indica que o culto a
Afrodite se espalhou através de navegadores - que a chamavam de "Pelágia"
ou "Pontia" (marinheira).
Hoje sabemos com certeza que
a grega Afrodite é uma variação da grande deusa oriental chamada Ishtar
(Mesopotâmia), Astarte (Síria e Fenícia), Milila (Babilônia) ou Atar
(Aramaica), considerada a personificação do INSTINTO SEXUAL. Sua ação
abrangia toda a natureza (humanos, animais e vegetais), espalhando a
fecundidade; dizia-se que sob seus passos as flores germinavam e que a
chuva da primavera era o elemento fecundante enviado pela Deusa.
Nela, os gregos
representaram sua sabedoria em relação a vida e a morte: na rápida
juventude, seguida por uma idade de pleno poder e, enfim, a velhice,
AFRODITE É O PODER REPRODUTOR DA NATUREZA e, portanto, aquela que promove
a perpetuação da vida e das espécies. Um hino órfico se refere a ela
dizendo: "Tu geras tudo o que está no céu, na terra fecunda, no abismo
do mar". Por isso o ciclo das estações é referido à deusa através da
lenda de seu envolvimento com Adônis.
Em seu aspecto luminoso, Afrodite expressa a vida primaveril, presidindo o
esplendor anual das plantas e a renovação dos animais através do amor e do
desejo - sem primavera não há fertilidade; sem fertilidade, não há futuro.
É a personificação do instinto natural de fecundação e reprodução e,
portanto, também é a DEUSA DO AMOR em seus diversos aspectos: Vênus-Urânia
(o amor puro e ideal), Afrodite-Nínfia (o amor universal), Vênus Genitália
(o amor conjugal), Afrodite Pândemos (o amor sensual) e até Afrodite
Metaira (o amor luxuriante). Nesse aspecto, ela se faz acompanhar por Eros
(o desejo), Peito (a persuasão) e Himeneu (o coito).
Em seu aspecto obscuro, é representada como uma deusa guerreira, associada
a Marte/Ares (deus da guerra e da morte); algumas estátuas inclusive a
apresentam com elmo e armas. Nesse aspecto simboliza a PAIXÃO
DESCONTROLADA, capaz de matar por prazer ou por fúria. É o desejo que não
admite recusa; a sexualidade instintiva que não conhece limites (como
transparece na lenda de Príapo: filho de Afrodite, com um pênis enorme e
sempre ereto).
Essa paixão é capaz de
provocar guerras através de intrigas mortais (como na lenda de Páris e
Helena de Tróia), e submete até os deuses em tramas de estupro, traição,
subterfúgios e violência sexual. Gera amores impossíveis (como na lenda de
Pigmaleão) e desejos homossexuais (como nos mitos de Hermafrodito e de
Lesbos). Também promove amores sado-masoquistas (como na lenda de Fáon e
Safo).
Bem, uma vez que se resolveu assumir Afrodite em você, não se pode
esquecer que estará atraindo essa energia para sua vida: uma egrégora de
sexualidade, que tanto pode levar ao amor quanto à luxúria, ao prazer e à
violência, ao amor profundo e à paixão enlouquecida. Assim, quando
conseguir manifestar Afrodite, haverá muita coisa gratificante em sua
vida... Não falo de "amores e romances", mas de descoberta de si mesma,
daquilo que te é mais personificante.
HERA - Anne Baring (Por
Priscila Manhães)
"O medo de não ser páreo para a maturidade feminina é a
principal causa da dominação e sujeição patriarcal da mulher."
Hera: um nome; diversas interpretações. Para muitos, Hera é a ciumenta e
vingativa irmã esposa de Zeus, o todo-poderoso deus do Olimpo. Essa imagem
estereotipada, contudo, oculta uma outra visão; na verdade, Hera é uma das
mais grandiosas deidades femininas: muito, muito antiga, as origens de
seus cultos se perdem na noite dos tempos, recuando ao menos até 10.000
a.C. Suas raízes remontam à Deusa Mãe do Neolítico, associada à vida, à
morte e à regeneração, temas que fazem dela mais uma representação
perfeita da Grande Deusa em sua típica triplicidade. Originária
provavelmente de Creta, Hera possui muitos elementos em comum com Cibele,
a conhecida e adorada deusa da Anatólia cujo culto atravessou muitos
séculos.
Freqüentemente, Hera é representada na companhia de leões, serpentes e
aves aquáticas. Na Ilíada, ela é chamada de "Rainha dos Céus," e também de
"Hera do Trono de Ouro." Outro nome que costuma ser associado a Hera é "a
deusa dos braços brancos." De todas as Deusas gregas, Hera é a única que
realmente apresenta traços de soberania.
Ela é a DEUSA DO MATRIMÔNIO - não da beleza ou da atração sexual, ou ainda
da maternidade, mas da união como um princípio. Como regente do casamento,
é Hera que dá validade e importância a essa união. Hera é também a
protetora das mulheres e de todas as formas femininas da vida.
Na Grécia, Hera era vista principalmente como a Deusa da Lua. O mês era
dividido em três fases, a saber: o crescente, a plenitude e o minguar da
lua. Por vezes, Hera era representada como a Deusa Tríplice, nas formas de
Donzela ou Virgem, A Plena ou mãe, e a Viúva, ou a Separada. Hera,
portanto, representa O PRÓPRIO CICLO DA MULHER EM TODO O SEU PODER E
TOTALIDADE.
Ademais, Hera é o Princípio Feminino. É também uma díade mãe-filha, pois
Hera e sua filha Hebe formam um todo, assim como Deméter e Perséfone. Na
iconografia, seus símbolos são a romã e uma flor em forma de estrela. Tais
flores eram trançadas em guirlandas e usadas para adornar seus bustos e
estátuas. Assim como Cibele, Hera trazia nas mãos a romã. Um lindo diadema
de ouro na forma de folhas e frutos de murta foi encontrado nas
proximidades de seu templo em Crotona, mais uma associação. Mas a mais
simbólica e profunda associação de Hera com o reino vegetal é a espiga de
trigo, conhecida como "a flor de Hera."
Um de seus epítetos, Hera "dos Olhos de Vaca," não deixa dúvidas quanto à
sua associação com o gado. Bois e vacas eram-lhe sagrados, até porque seus
chifres se assemelham à lua crescente. Como Rainha do Céu e da Terra, ela
traz semelhanças com a deusa egípcia Hathor. A Via Láctea era conhecida,
simplesmente, como "a Deusa."
Na mitologia grega, Hera é, sem dúvida, a mais elevada das Deusas. Hera é
mais conhecida como irmã e esposa de Zeus, mas tal associação é muito
posterior. A mitologia mais antiga apresenta elementos que comprovam que a
Hera original era independente e não possuía marido.
Posteriormente, é possível que tenha desposado Dioniso ou Héracles, que
descem ao Mundo Inferior na Lua Nova para resgatá-la, trazendo-a na forma
da Lua Crescente. O nome Héracles significa simplesmente "Glória a Hera."
Por sua associação solar, Héracles, juntamente com Hera, representa a
antiga imagem do filho-amante da deusa, e sua união é a união do sol e da
lua quando esta se encontra em sua fase cheia.
Através de seus truques, Zeus leva Hera a adormecer, e Hermes põe Héracles
ainda bebê em seu seio. Ele a morde e, ao despertar, Hera o empurra para
longe; o leite que jorra de seu seio espalha-se nos céus, formando a Via
Láctea.
Em seus locais sagrados, Hera era cultuada por dezesseis mulheres.
Após seu 'retorno' do Mundo Inferior, elas banhavam sua estátua numa
nascente sagrada, restaurando assim sua virgindade - uma cerimônia que
ocorria anualmente, antes da luz nova. O grande ritual do casamento entre
Hera e Zeus ocorria no período da lua cheia, celebrando a união da lua e
do sol. Irmão e irmã; marido e mulher: o Hieros gamos, o 'casamento
sagrado', uma tradição mantida de uma era anterior.
Num nível mais profundo e ancestral, o casamento entre Hera e Zeus pode
ser visto como a relação entre os dois grandes arquétipos da vida que só
podem ser representados por um rei e uma rainha, ou um Deus e uma Deusa.
Seu casamento regenera o universo, numa união criativa retratada no hieros
gamos entre Hera e Zeus. Este sentimento era provavelmente compartilhado
por todos os participantes de seus ritos, os quais celebravam seus
próprios matrimônios no mesmo período do casamento entre a Rainha da
Vida e o Senhor da Vida; um casamento que unia cosmicamente os dois
grandes aspectos da vida.
Posteriormente, esses aspectos passam a ser vistos como a terra e o céu,
sendo a terra representada pela deusa e o céu pelo deus. Contudo, por
princípio, ambos estão muito além de suas representações. Para se ter uma
noção mais correta da profundidade dessa união, é necessário conhecer a
grande união abordada na mística tradição judaica da Kabbalah.
Mitologicamente, a Terra gerou a grande árvore de maçãs douradas das
Hespérides em homenagem ao casamento entre Hera e Zeus; contudo, acredito
que essa árvore fora outrora sagrada a Hera, e possivelmente as 'maçãs
douradas' eram, na verdade, romãs. Para mais detalhes sobre sua
maravilhosa união, recomendo a leitura do 14o. livro da Ilíada.
Templos gigantescos foram erguidos em sua honra em Samos e no sul da
Itália, além de outras localidades. Hera era cultuada em sua forma humana
como uma manifestação da lua. Seu templo principal, porém, ficava na
planície de Argos: o Heraion. Reconstruído três vezes, o primeiro Heraion
foi erguido por volta de 1000 a.C., nas fraldas do Monte Euboia, num amplo
terraço de frente para a grande planície do Argos. Uma vez por ano,
durante uma lua cheia, tinha lugar a procissão ritual de Hera, que passava
pelas cidades do Argos: Micenas, Tiryns, Argos, Midea. Para os gregos de
então, o Heraion possuía a mesma importância que o Templo de Jerusalém
possui para o povo de Israel: ele era "o" templo, um santuário para toda a
terra.
O mais antigo dos templos possuía enormes alicerces, os quais ainda podem
ser vistos.
Voltando à mitologia, lemos que Zeus assume a forma de um cuco,
abrigando-se no colo de Hera durante uma tempestade. Com pena do pequeno
pássaro, ela o cobriu com sua túnica. Por conta disso, o cuco figura na
ponta de seu cetro e também é esculpido em seus templos. A lenda mostra
claramente como Zeus não passa de um intruso nos domínios matriarcais de
Hera. Através do simbolismo do cuco, Zeus passa a integrar a lenda do
culto a Hera.
Trata-se de um culto bastante místico, cujo símbolo era a romã. Hera era
cultuada como uma divindade numinosa, que se manifestava para as pessoas.
Seus seguidores não lhe dirigiam pedidos, e ela provavelmente era cultuada
como o princípio regenerador da vida, regente do Mundo Inferior, da cúpula
celeste e da terra. "Se não conseguir demover os deuses do alto, volto-me
para o Mundo Inferior", diz Juno na Eneida. Tais palavras, porém, ecoam
uma imagem mais antiga da Grande Deusa. A romã de Hera passou para
Perséfone.
Seus devotos entoavam-lhe canções, e sem dúvida eles eram capazes de
"vê-la"; afinal, falamos de uma época em que a experiência visionária
ainda era aceita.
O mais velho de todos os seus templos ficava em Olímpia, e é anterior ao
ano 1000 a.C. - muito mais antigo do que o templo de Zeus. Ali, Hera regia
os torneios, onde as mulheres corriam tão bem quanto os homens. As
corridas entre as mulheres eram divididas em três categorias - cada uma de
acordo com a idade. (seria esta uma referência à triplicidade
Donzela-Mãe-Anciã?) Os torneios ocorriam no dia seguinte à lua cheia.
No interior do templo de Olímpia, uma estátua apresenta Hera sentada em
seu trono, a Rainha dos Céus. Ao seu lado, Zeus está armado como um
guerreiro, mostrando claramente que ele é quem fora escolhido como o
favorito da deusa, e não o contrário. Através de Hera, as mulheres eram
enaltecidas e os homens desenvolviam sua onisciência do feminino.
Se Olímpia é seu mais velho templo, o maior era o de Samos. O primeiro
altar possuía 32 metros quadrados; anos depois, foi construído outro muito
maior, com 120 x 54 metros, decorado com um friso por toda a sua volta,
como no templo de Pergamon. Em termos de locais sagrados, a ilha de Euboea
era-lhe dedicada, e templos enormes foram-lhe erguidos na Beócia, na
Sicília, e em Paestum, na Itália, onde existia uma rede de templos que se
assemelhava a uma cidade a ela dedicada. Aqui, Hera era a Deusa do Mundo
Inferior, além de ser Rainha dos Céus.
Como a lua crescente, Hera ressurgia dos mortos; portanto, era ela quem
restaurava a vida aos mortos. Seu templo em Crotona, no sudeste da Itália,
fornecia um elo de ligação entre a planície de Argos e Paestum.
Atualmente, uma solitária coluna é tudo o que restou desse outrora
grandioso templo.
Posteriormente, através de Homero, Hera passa a ser vista como a esposa
ciumenta e aborrecida de Zeus, sempre tentando recuperar seu poder
perdido, manipulando por trás de um casamento infeliz com um marido
patriarcal. Isto ecoa a antiga voz da deusa, que tenta encontrar seu papel
no novo mundo patriarcal. Reflete também a completa submissão das esposas
gregas diante de seus maridos. Ela se vinga de Zeus em suas amantes, e
também nos frutos dessas uniões - uma paranóia da esposa rejeitada,
ciumenta, manipuladora. Por sua parte, Zeus se mostra constantemente
infiel, provocando-a e ameaçando- a: "Nem com você, nem com tua ira eu me
importo." Dessa união, surgem dois filhos: Hefestos, o aleijado, e Ares,
deus da guerra e da discórdia.
Na Ilíada, percebemos a necessidade do macho imaturo em difamar e
satirizar as mulheres poderosas e a antiga rodem social matriarcal; a
necessidade de negar às mulheres seu grande poder e sua profunda relação
com a vida. Em Homero, Hera então é reduzida a uma figura risível,
ciumenta e vingativa, num contexto que retrata uma cultura dedicada à
guerra, ao sacrifício humano e à glória. Zeus, por sua vez, encaixa-se no
papel arquetípico do 'Don Juan', é a imagem do macho fálico que passa a
dominar a cultura grega. Agora, Hera não passa de uma deusa conquistada e
subjugada, oriunda de uma ordem mais antiga. Zeus surge de uma cultura
invasora, que cultuava deuses do céu e que chegou ao Mediterrâneo vinda do
norte, impondo-se sobre as culturas anteriores que ali existiam: a invasão
dórica.
Num nível mais profundo, os problemas de relacionamento entre Hera e Zeus
simbolizam a dificuldade em se unir as tradições Lunar e Solar na mente
humana, pois devemos descobrir como elas podem coexistir e frutificar.
Trata-se de dois tipos diferentes de consciência: a Solar: heróica, com
sua abordagem linear, lutando pela supremacia e pela perfeição; e a Lunar:
cíclica, em busca da harmonia do relacionamento, da conexão, da integração
ou da síntese, da totalidade.
Por aí, podemos perceber o quanto temos a aprender com Hera.
Uma reflexão: a co-relações entre Afrodite e Perséfone - Por
Priscila Manhães
Todas deusas são faces de uma mesma Deusa. Então podemos
muito bem nos identificar com várias faces ou com todas elas...
Afrodite é a GRANDE DONZELA. Ela é absolutamente livre e só
faz o que quer pelo simples prazer de satisfazer-se. Ama pelo prazer de
amar... Não quer compromisso, não deseja se prender a ninguém e nem mesmo
prender alguém a si. Ela gosta é da conquista, da aventura, da novidade.
Ela é a fêmea sedutora e sem limites.
KORE também é um aspecto Donzela da Deusa, mas ela tem um
compromisso. Afrodite, ao contrário, se impõe pela conquista: ela seduz
para se satisfazer e depois parte. Não olha para trás e não se preocupa
com o destino do seduzido. Seu lado negro, inclui até a possibilidade de
seduzir por dinheiro ou por vingança, assim como seduzir para fazer alguém
sofrer.
Afrodite é a SEDUÇÃO! Ela inspira a PAIXÃO. O "amor
incondicional" que Afrodite pode ensinar é o amor sem limite algum. Nem de
idade, nem de cor, nem de raça, nem de sexo e nem de tempo. Amar pelo puro
prazer de estar amando, pelo tempo que durar... e às vezes, mais de um ao
mesmo tempo: homem, mulher, criança, velho, animal - sem qualquer limite
mesmo.
Afrodite é uma energia muito difícil de se comungar, pois a
liberdade que ela propõe muitas vezes é imensamente maior do que a que
estamos acostumados a desejar. A liberdade desse amor sem condição
alguma... O que implica com o amor conjugal que Afrodite representa, e
para algumas pessoas soa um tanto estranho, já que ela não conseguiu ser
fiel a seu marido, mas vale lembrar que ela foi obrigada por Zeus a
casar-se com Hefesto, a quem não amava. Ela não estabeleceu com ele nenhum
compromisso de partilhar a vida...
Perséfone
Perséfone é a personificação do Ciclo das Estações grego:
ela passava quatro meses no Submundo, quatro no Olimpo e quatro na Terra
(com sua mãe). Vale lembrar que os gregos só tinham essas três estações.
Portanto, fico mais com a opinião um tanto inaceitável que um "rapto"
tenha sido dignificado como ação que produz o ciclo das estações. Creio
que essa interpretação é tardia, fazendo parte do período patriarcal
grego, pois, de certa forma, justificava o rapto de jovens mulheres pelos
soldados. Mas Perséfone tinha o "compromisso" com sua mãe, com Hades, com
Olimpo.
Entre outras coisas, se pegarmos Platão, perceberemos que ele faz uma
associação entre Hades (o Esquecimento) e Dioniso (o Êxtase). Dionísio é
uma divindade ligada ao êxtase; sua versão romana é Baco, ligado à bebida,
que, de certa forma, também leva ao êxtase (quando na embriagues). Hades,
por sua vez, é ligado ao submundo e à morte.
E, realmente, as alusões a Dionisio são fortes e gritantes no mito: a
moita de narcisos (flor tradicionalmente atribuída a ele) e as sementes de
romã que Hades deu para Perséfone comer. A romã também era atribuída a
Dioniso e as sementes, por serem brancas e com o formato de uma gota,
representam o esperma dele (os caroços lembram gotas de sêmen).
Bem, isso nos leva a crer que o mergulho da jovem Kore no submundo tenha
algo a ver com a sexualidde sagrada. Por outro lado, Hades é associado a
Plutão, que rege o signo de Escorpião - um signo de sensualidade e paixão
e ligado à terra.
Nessa vivência, ela come três caroços de romã (que, como já disse, está
associado a Dionísio e ao sêmen divino), sugerindo uma experiência sexual.
Ao mesmo tempo, ela vagueia pelo Mundo das Sombras e lá, tem que encarar
sua própria Sombra refletida nos olhos de Hades (o esquecimento, a morte).
Essa experiência é verdadeiramente única: o de encarar sua Sombra... No
entanto, não fica ai: ela tem que aceitá-la (Sombra) como sua parte
inseparável...
Outro elemento interessante do mito é a forma como Perséfone é chamada no
início: KORE. Esse termo significa "mocinha", "garota"... Hoje em dia
poderia até ser traduzido como "ninfeta". Mas é sério: a palavra ninfeta
nos remete àquela mocinha que está começando a se tornar sedutora.
Portanto, tudo faz parecer que o "rapto" de Kore tenha sido, na verdade,
uma ENTREGA SEXUAL. Nesse caso, sua associação com a morte é nítida: o
prazer do orgasmo é tão forte que leva ao total esquecimento de todo o
restante do mundo e ao êxtase - e voltamos à associação de Hades e
Dioniso.
Alguns autores - como Jung - vêem lógica nessa associação, posto que a
morte é a privação permanente da personalidade e o êxtase (seja de que
tipo for) também provoca esse mesmo efeito, mesmo que temporário. Durante
o êxtase sexual, há um total bloqueio da personalidade - não nos lembramos
quem somos - sequer que existimos. O êxtase seria, então, uma "morte"
(compreendido, é lógico, o sentido disso).
Pessoalmente, acho esse mito um dos mais completos e complexos - do qual
gosto muito. E não é só por falar do Submundo.
Uma das suas muitas mensagens é a da SEXUALIDADE SAGRADA. KORE - a
"menininha da mamãe" - descobre-se mulher ao entregar-se aos desejos de
Hades. Nessa entrega, ela morre - mas morre em inocência, deixando de lado
as brincadeiras de menina para tornar-se mulher. Por isso ela sai dessa
experiência completamente mudada: agora é PERSÉFONE, ou seja, uma mulher
que sabe o que quer, que não está mais sob a custódia de sua mãe, mas
tornou-se livre, rainha. É, portanto, o mito da transformação da mulher e
da descoberta de seu poder. Trata-se, assim, de um mito profundamente
significativo.
De certa forma, essa interpretação é ratificada pela tristeza de Deméter -
que já não tem mais a sua "menininha" - e pela tentativa de substituí-la
por Demophon, o filho dos reis que a acolheram. Seu lamento lembra, então,
o da mãe que já não tem mais filhos para criar e sente-se meio sem razão
para viver - e por isso parte para a única coisa que sabe fazer na vida:
criar filhos. Apega-se ao filho de outro, casa e passa a cuidar dele como
se fosse seu - inclusive fazendo o ritual da imortalidade sem o
consentimento dos pais.
Talvez seja por isso também que, no mito, ela se associa a outra Anciã -
Hécate -, que seria capaz de compreender sua tristeza. Mas também a Baubo,
que a diverte com piadas obscenas levando-a a sorrir com a malícia típica
das mulheres.
No mito, Kore ingressa definitivamente no universo da feminilidade adulta,
com todo o seu drama de nascimento, sexo e morte.
Até o começo desse século, toda mulher sabia que ao se aproximar o momento
do parto estaria exposta à um grande risco de vida. Como a relação sexual
é o pré-requisito para a gravidez e o nascimento, também nos liga com
forças interiores implacavelmente sombrias. Assim, nesse mito, nascimento,
sexo e morte estão ligados num significado além do óbvio: Perséfone
descobre outras leis, que se referem às forças da Natureza, às forças da
paixão, da destruição, da transformação... Leis que as regras dos homens
não conseguem subjugar, nem mesmo entender o sentido. Nesse aspecto,
trata-se de um mito fundamentalmente dos Mistérios Femininos.
O dualismo presente no Mito de Perséfone fez com que alguns autores
afirmassem sua presença em nossa psiquê. A ida de Perséfone ao Mundo
Subterrâneo seria nosso "eu inconsciente" (quando Kore desce ao Submundo,
onde a razão - sua mãe - não fala mais alto que sua vontade) e sua volta
nosso "eu consciente" (quando volta como Perséfone, a razão a chama
novamente, ficar uma estação com sua mãe), numa luta constante.
Laurie Coubot diz: "As Deusas das Profundezas podem colocar as mulheres
em contato com o inconsciente. As lembranças, os sentimentos profundos e
os sonhos são importantes para elas. Mais do que a de outras mulheres,
suas vidas parecem ser guiadas pelos grandes arquétipos. Gostam de
desempenhar o papel de conselheiras, amigas, guias e instrutoras. Muitas
mulheres influenciadas por estas Deusas possuem poderes sensitivos e dão
boas curandeiras ou médiuns."
Sempre que sentir necessidade de entrar em contato com seus sentimentos
instintivos mais profundos ou quando sua vida contradizer esses
sentimentos, a Deusa pode lhe dar coragem de ser forte ao demonstrar esses
sentimentos para os outros, principalmente ao ser amado.
Imagino que haja trilhões de associações e assim poderíamos juntar a
Liberdade de Afrodite e o Compromisso de Perséfone, atravessando e usando
a ponte entre os dois mundos de uma maneira livre, a liberdade de ir e
vir, quando e como quiser. O compromisso de deixar agir o inconsciente e o
consciente na plenitude.
Hécate -
Por
Priscila Manhães
Hécate também é uma Titânia,
ou seja, uma divindade pré-olímpica. Sua origem é muito discutida, mas
parece ser uma variação da egípcia HEKET ou HEQ – a matriarca tribal no
Egito pré-dinástico. Na Grécia, seu culto começou na Trácia (a parte
nordeste do país), primitivamente associada à Lua.
Embora pouco citada nos livros de mitologia (que, normalmente, só tratam
dos deuses olímpicos), hoje sabe-se que seu culto era muito amplo e
generalizado nas classes populares, geralmente com o título de "Kratay" ou
"Eurybia" – que significa DEUSA FORTE.
Na mitologia grega mais recente, Hécate aparece tão poderosa no céu como
na terra, honrada e temida até pelo próprio Zeus.
Segundo uma lenda, Zeus estabeleceu um decreto que dizia que "cada vez
que alguém deita uma oferenda na terra sem ofertá-la a nenhum deus
específico, essa oferenda é de Hécate". Isso só demonstra que ele
reconhecia que, em princípio, tudo que está sobre a Terra é território
dessa deusa.
Outro fator interessante é que, diferentemente de outras deidades antigas,
Hécate foi absorvida no panteão clássico grego com pouca alteração -
provavelmente pela força de sua simbologia e culto no costume popular.
Seja como for, tudo isso indica tratar-se de uma deusa muito antiga e
muito respeitada - muito provável, uma remanescente das primitivas "Deusas
Tríplices", cultuadas antes do estabelecimento de qualquer panteão
organizado. Provas disso são seu principal título – HÉCATE TRÍVIA – e sua
forte ligação com a noite e com a Lua - o que a liga aos antigos cultos da
Europa Central e da Ásia Menor.
Provavelmente, Hécate é a
corporificação grega da Deusa Tríplice original. Há quem defenda a tese de
que Hécate é a face Anciã dessa Deusa antiga, havendo as faces Donzela e
Mãe sido absorvidas completamente por outras deusas – tais como Ártemis e
Deméter, respectivamente. Além disso, seu local de culto são as
encruzilhadas de três caminhos; dizia-se que ela ficava nesses pontos,
olhando para cada um deles com uma das faces.
Em seu aspecto luminoso, Hécate foi associada a Apolo (o Deus da Luz). Os
mitos gregos mais antigos atribuem a ela a concessão de prosperidade
material, o dom da eloqüência nas assembléias políticas, a vitória nas
batalhas e nos jogos; era ela, também, que promovia o aumento dos rebanhos
e favorecia a boa pesca. Interessante notar que Hécate era considerada a
PROTETORA DA JUVENTUDE – atributo associado a Ártemis e Apolo (os gêmeos).
E vale lembrar que um dos epítetos de Apolo é "Hécatos", tornando-o uma
versão masculina da Grande Deusa.
Seu aspecto sombrio liga-se ao fato de ser uma deusa lunar e, portanto,
associada à noite. Daí sua representação artística a apresentar portando
tochas e com um vestido feito das estrelas, cuja luz mostrava o caminho
dentro da vasta escuridão das nossas origens e da profundeza de nosso ser
interior. Por sua natureza ser originariamente misteriosa, os gregos
helênicos enfatizaram seus poderes destrutivos às custas de seus poderes
criativos, até que Hécate fosse apenas invocada como uma DEUSA DO
SUBMUNDO. Torna-se, então, a SENHORA DOS MORTOS, líder da "Caçada
Selvagem".
Nesse aspecto, é acompanhada por "fantasmas", corvos, corujas e,
sobretudo, cachorros – que uivam lugubremente para a Lua –; suas lendas
falam que ela passa pela terra, com seu séquito, ao pôr do sol para
recolher os mortos daquele dia. Por isso, muitas vezes também é
representada com um athame ou uma foice (em seu cinto ou na mão), usado
para cortar as "ligações" com o mundo dos vivos.
Como Prytania, Invencível Rainha da Morte, Hécate tornou-se guardiã do
submundo. Esse aspecto foi tradicionalmente associado à Lua Nova
(particularmente na sua face de Lua Negra). Como DEUSA DA MAGIA E DOS
FEITIÇOS, ela manda sonhos proféticos ou pesadelos à humanidade. Sua
presença é sentida nos túmulos ou nas cenas de assassinato, onde preside
as purificações e expiações. Como sua semelhante Kali, na Índia, Hécate é
SACERDOTISA DOS FUNERAIS, conduzindo seus ritos nos locais de enterros e
cremações, assistindo e auxiliando na liberação dos recém-mortos.
Arquetipicamente, Hécate é uma figura primordial nas camadas mais antigas
do inconsciente humano. Sua simbologia nos remete ao princípio dos tempos,
como filha de Nyx, a Noite Antiga. Hécate é A GUARDIÃ DOS MISTÉRIOS
PROFUNDOS DO INCONSCIENTE que acessa a memória do inconsciente coletivo e
das forças primitivas.
Do mesmo modo que lidera a Caça Selvagem, Hécate conduz os mortos e os
vivos aos melhores caminhos (tocha na mão). Ela é a SENHORA QUE GUIA.
Preside os nascimentos, por isso é chamada "Protiraya", a SENHORA DOS
PORTAIS, sendo a vagina o portal do ingresso nesta vida. Assim, é invocada
durante os partos como condutora ao renascimento, junto com ÁRTEMIS (que é
parteira e protetora das crianças).
Considerada como a Deusa das deusas e Rainha das Bruxas, Hécate preside
todos os rituais mágicos, profecias, visão, o nascimento das crianças,
morte, o submundo e os segredos da regeneração. A velha mulher curvada
pelo peso dos anos, a curandeira, a bruxa; aquela que conhece todos os
sintomas do corpo e da alma humana. Esse é seu arquétipo.
A natureza profética de Hécate sobreviveu na Noruega e na Suíça, como A
VELHA, sabia mulher falante, que viajava pelas fazendas e dizia aos
moradores dos campos seu futuro. Mas com o advento do domínio patriarcal a
Deusa diminui sua influência e grandeza. Os poderes da sábia anciã foram
reprimidos e mais tarde emergiram como projeções torturadas e distorcidas
do patriarcado, classificadas como bruxaria perigosa e magia negra.
Hécate é toda potencial - o potencial daquilo que ainda não é, como uma
semente que germina, subterrânea. Ela é mágica, caótica, imprevisível.
Deve ser invocada quando todas as coisas sólidas e pretensamente seguras
desabam, e é preciso pensar em novos sonhos e possibilidades.
Ela é SENHORA DO CALDEIRÃO DAS TRANSFORMAÇÕES, onde residem todas as
possibilidades. Um trabalho com Hécate pode ter mil facetas justamente por
isso: pode-se trabalhar desde os entraves na sua vida financeira, até seu
caminho espiritual, suas capacidades mágicas e oraculares até pedir a
intercessão dela em um caso de morte ou nascimento difíceis; pode pedir
que ela oriente você ao melhor caminho nas encruzilhadas da vida...
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