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Epifania do Eu Comecei a perceber onde Deus morava quando, pela primeira vez, já aos trinta e seis anos, tive consciência plena (aquela consciência que transcende o mero conhecimento intelectual de um fato - porque esse eu já tinha) de que, fizesse o que fizesse, alcançasse o que alcançasse em minha vida, estava condenada a ser eu mesma até o último dos meus dias. Seria Lígia, Lígia, Lígia, Lígia, tediosamente, arrastadamente Lígia até morrer. Isso me pareceu muito triste. Eu nunca poderia experimentar as sensações ou os reais sentimentos de qualquer outra criatura. Qualquer conhecimento do que se passava na cabeça ou no corpo dos que me são próximos me estava eternamente vedado. Isto porque eu era Lígia, não era qualquer outra coisa. Nunca saberia o que vê ou sente João, ou uma cambacica, ou uma lesma, ou uma célula. Sempre Lígia, numa espécie de prisão perpétua. Prisioneira de mim mesma. Então passei a me perguntar "exatamente o que é Lígia"? Acompanhando os fatos de minha vida, o que fui e sou, não consigo encontrar resposta. O que tinha a Lígia de ontem à noite com a de hoje de manhã? Absolutamente nada. Um corpo em comum, talvez? Mas eu me defino como um corpo? Ou tenho a (triste) pretensão de ser algo além, uma entidade que se caracteriza pelo seu estado de "ligice"? Essa tem sido a questão com que me defronto atualmente. Consigo, já, compreender intelectualmente que não há um estado de ser típico de Lígia. Mas ainda não o entendi com o coração. Espero um dia chegar a isso. Pois, sei que, quando o conseguir, quando me aceitar plenamente como um pacote de vida, dançando a dança da vida junto com todos os outros pacotes de vida, não haverá mais Lígia, mas sim a vida sendo. Então, poderei viver em com-paixão: a paixão compartilhada por todas as criaturas.
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