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Pequenas Epifanias
 

Epifania das martas e marias

Isso eu sei de ter vivido: quando o desespero bate muito violento, a primeira coisa que você esquece é das plantas. E o que é piornem percebe, até que o teu bonsai de 20 e tantos anos morra por falta de água ou a orquídea que você herdou da tua avó agonize no meio da sala.

Nesses momentos, o que irá te salvar não é o cavaleiro encantado, que esse pode muito bem decidir ir caçar dragões ou se atirar pela janela, incapaz de suportar a vida. Quem virá ao teu encontro, de forma mais do que discreta, de forma imperceptível, são as martas e as marias.

As martas regarão as plantas, e guardarão as roupas, e pentearão, se preciso, os teus cabelos. Lavarão as roupas sujas e jogarão fora a comida velha que esverdeia na geladeira. Tudo isso sem que você peça, ou sequer perceba.

As marias, ainda mais sutis, ainda mais discretas, ah, as marias sentarão contigo. Ou se esconderão em um canto da casa e dirão longas e detalhadas preces, ordenando ao Senhorcom a autoridade de quem carrega o nome de sua divina mãeque organize as coisas, que remende as feridas, que lave as chagas e que, por Deus, tome juízo e deixe de esfacelar os corações humanos.

Farão negociações precisas e preciosas, envolvendo velas, anos de vida e pesos na consciência. E, ao final, sairão vencedoras e te doarão como esperança o que te foi tomado como pesadelo. Substituirão o teu filho perdido pelo dom de curar, o teu amor destruído pela certeza da liberdade – seja o que for que perderes, seja o que deixares para trás, te asseguro: confia, confia, que em tua vida entrarão, certas como as estações, essas martas e essas marias.

Uma das minhas martas se chama Lourdes e trabalha como faxineira aqui em casa. Enquanto eu assisto a ruína do meu casamento, percebo os gestos amorosos que se multiplicam: Minhas plantas regadas depois de dias e dias de seca, todas as folhas mortas removidas e os vasos doentes enfileirados separados. Nada foi dito, nada foi pedidoela simplesmente fez. Também limpou a geladeira e colocou frutas sobre o meu lugar na mesa  - forma discreta de dizercoma, por favor”.

Outra se chama Mônica. Lavou meus pés como Cristo, quando eu estava doente. E recebeu minhas lágrimas em silêncio, quando finalmente eu comecei a chorar, depois de anos e anos como leito de rio seco, que absorvia todas as lágrimas do mundo, mas não gerava água própria. Foi com ela que aprendi a chorar assim como choro agora: deixando escorrer as lágrimas, sem enxugar, sem medo delas. Mônica: marta e maria.

As minhas marias – ah, as minhas marias... São tantas e tão discretas e tão docessão quase que um alfabeto de nomes femininos. Começando no A de Alzira, a minha tia que, sei por vias indiretas, estabeleceu sérias negociações com o Senhor tendo em vista a minha futura felicidade – e, a conhecendo como a conheço, sugiro seriamente ao Senhor que cumpra as cláusulas demandadas. Afinal, essa mulher parou um ônibus em São Paulo para retomar uma carteira que lhe foi roubada – e conseguiu de volta. Isso, com mais de 60 anos.

Nesse A também está a Angela, a minha amiga budista. Coitada da Tara Vermelha. Pelo número de vezes que a Angela me incluiu na recitação da prática de Tara Vermelha, sinto pena da deidade. Pena e intimidade, que nessa altura me conhece muito bem. Mas essa, embora tenha alcançado a natureza búdica, também é mulher deve estar acostumada.

E mais a frente neste vocabulário de afetos está a Lúcia – distante mas disposta a ajudar com preces, invocações e até com encantos, se necessário - e para quem eu também fui Maria. Estão Claudia, Ilane, Liane, Patrícia, Margarita, Fernanda, Renata, Déia, Dorothy, Jane, Chantal – são tantas e tão espalhadas pelo mundo que nem ouso enumerá-las. Mulheres com quem conto para lavar os pratos depois da festa, para lavar o rosto depois das lágrimas e, se necessário, para lavar o morto antes do enterro. Que me dão sustentação quando o momento do desespero chega. Minhas martas e marias, a quem retribuo com os mesmos cuidados, entretecendo uma colcha de afetos e feminilidade.

Texto de autoria de Ligia Gomes Carneiro


O que quer dizer "epifania"?
Epifania significa uma aparição ou manifestação divina. Por extensão, o termo é aplicado a qualquer momento de encontro com o divino em nossas vidas.
Pessoalmente, acredito que nossa vida é composta de infinitas pequenas epifanias, sussurros do amor divino em nossos ouvidos. Basta aprender a ouvir.


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