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Epifania do Verde
Tento
me
tornar
imune
à
vida.
Treino,
treino,
treino,
treino.
Quando
estou
quase
lá,
quase
zen,
quase
sem,
algo
me
estoura.
Hoje
foram as
gramas
em
frente
ao prédio do jornal. Estavam
tão
verdes,
tão
perfeitamente
verdes,
que
eu
só
conseguia
pensar
em
ser
poder comê-las, fundir-me nos muitos verdes das diferentes gramas.
Por
que
o
verde
faz
isso
comigo?
Por
que
ele
me
invade,
feito
uma
tempestade,
e
me
deixa
meio
bêbada?
Por
que
eu
nunca,
nunca
poderei
explicar
a
alguém
o
que
sinto?
Também,
como
explicar
que
se
quer
ser
um ruminante
para
apreciar
plenamente
aquele
verde,
para
comê-lo e
permitir
que
os
meus
átomos
e os dele se fundam, e
ser
una
com
ele?
Como
explicar
querer
ser
una
com
os
seres
todos
outros,
e
mais,
e
tanto,
com
os
seres
tortos?
Como
explicar
que
se
ama,
nos
outros,
não
qualidades,
mas
defeitos?
E,
que
assim
sendo,
não
por
se
querer,
mas
porque
se é,
ver
beleza
infinita
nos
cachorros
sarnentos,
nas putas,
nos
loucos,
nos
confusos
adolescentes
e
nos
velhos
senis?
Como
alguém
entenderia
que
amo,
da
vida,
a transitoriedade, a
fragilidade,
que
se expressam nas
imperfeições?
Triste
sina
de
urubu.
De
que
genética
torta
se herda
tão
despropositada
disposição?
Entre
Apolo e
Saturno,
ficaria
com
Saturno.
E
nem
me
importava
muito
que
Saturno
me
quisesse
ou
não,
é
apenas
que,
nele,
eu
posso
reconhecer
a
marca
da
vida:
a
imperfeição.
Texto de autoria de
Ligia Gomes Carneiro
O que quer dizer
"epifania"?
Epifania significa uma aparição ou manifestação divina. Por extensão, o
termo é aplicado a qualquer momento de encontro com o divino em nossas
vidas.
Pessoalmente, acredito que nossa vida é composta de infinitas pequenas
epifanias, sussurros do amor divino em nossos ouvidos. Basta aprender
a ouvir. |