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Feminino Plural - Fogo
Epa, cadê meu par?

ONDE ESTÃO

MEUS SAPATOS?

Na colcha da vida, nenhum retalho é desperdiçado

Deixe-me contar uma história.

Quando eu era adolescente, trabalhava em minha casa uma empregada meio maluca, a Maria, que juntava trapos para uma colcha de retalhos. Ela os guardava em uma caixa e, à noite, tirava todos os trapos, espalhava em cima da cama e escolhia um deles. Em seguida, aplicava um molde redondo, do tamanho de uma tampinha de garrafa, e recortava aquele trapo em inúmeros trapinhos menores e redondos. Fazia a barra em cada trapinho, os franzia, e guardava em uma outra caixa.

Durante muitos anos eu a vi juntando e recortando trapos. E um dia, milagrosamente, ela me mostrou uma magnífica colcha de retalhos.
Hoje percebo que não houve milagre nenhum. Ela apenas usou de paciência e habilidade, e me deixou, de presente, uma lição tão simples e doce - nenhum retalho deve ser desperdiçado.

Um trapo de cada vez

Como fez a Maria, vamos começar a juntar trapos. Você já sabe aonde aperta o seu sapato, já fez sua lista de "calos". Mas não poderá, certamente, solucionar tudo de uma vez. Então, escolha um pedaço por vez.

Com base na lista de "calos" que fez, decida que aspecto é mais importante mudar. Se são os seus relacionamentos, se é o seu trabalho, se é a sua vida pessoal. Escolha só UM aspecto. Trabalhar com colchas de retalho é lento!

 
Uma vez escolhido o aspecto de sua vida que lhe parece ser o seu pior "falso sapato vermelho", é preciso descobrir o porquê dessa situação. Vamos imaginar que o seu falso sapato vermelho é a necessidade de estar constantemente apaixonada e isto a vem levando a escolher o tipo errado de homens.

Como a Maria, vamos cortar esse seu padrão de comportamento, esse seu "desejo errado", em pedacinhos. Só que, no lugar de trapinhos de pano, vamos usar pedacinhos de papel. Anote, cuidadosamente, todos os relacionamentos "errados" em que você se meteu. O que eles tinham em comum? Por que você escolheu esses homens?

Um conjunto de trapos forma um padrão

Se você for sincera consigo mesma, verá que, aos poucos, surgirá um padrão desse conjunto de trapos. Que padrão é esse?

Você, provavelmente, vem repetindo esse padrão de comportamento há muito tempo, desde do que é criança. É como se, quando menina, você tivesse encontrado uma resposta mágica, que lhe garantisse ganhar o que queria. Como o que a gente quer na infância é amor e proteção, seus padrões estão relacionados às estratégias para a obtenção de amor e proteção que você desenvolveu.

Isto vale não só para os relacionamentos errados. Vale para a maioria dos comportamentos que adotamos por nos parecerem "corretos", mas que no fundo não atendem aos nossos anseios.

Se o que seu meio social da infância, especialmente seu pai e sua mãe, elogiavam e aprovavam era uma pessoa bem sucedida, que ganhava muito dinheiro, e seu sonho era ser uma poeta - profissão sabidamente de poucos ganhos - quem sabe você não escolheu ser médica porque achou que os sapatos que eles admiravam eram melhores que os seus pobres sapatos de poeta?

Pode até ser que você seja uma excepcional médica, mas as saudades do que você poderia ter sido continuarão assombrando seus sonhos.

Um conjunto de padrões forma uma vida
Mas pode ser que seus sapatinhos sejam mais "jovens", não resultem de padrões tão antigos nem de problemas tão graves. São relativamente modestos, se comparados aos daquelas mulheres que sistematicamente se envolvem com os homens errados.

Vamos imaginar que o seu sonho seja aprender a dançar tango. É um sonho modesto, e não irá mudar sua vida, mas é o que você quer. Só que sua família inteira ri dele. E, ao invés de frequentar uma aula de tango, você gasta as tardes de sábado em intermináveis churrascos com a família de seu marido. Aos poucos, você se convence que a missão de sua vida é fazer saladas de batata. Mas sente, no final da tarde, um vazio terrível.

Faltou algo na salada de batatas, minha amiga. Faltou você e sua alma, que estavam sonhando com aulas de tango, em que você vestiria lindos sapatos vermelhos - os seus, verdadeiros, feitos pela sua disposição de aprender algo novo.

Você adotou um padrão de comportamento que está substituindo a vida que você gostaria de levar - aquela na qual você dança tango e é uma mulher muito alegre.
Hora de costurar, hora de sonhar

No momento em que você se torna capaz de reconhecer esse padrão de comportamento que vem adotando como substituto de seus verdadeiros desejos, você se torna capaz de desfazê-lo.

Você recortou seus trapos em pedaços menores, e agora poderá reorganizá-los. Isto não será fácil. Mas, como a Maria, lembre-se: um trapo por vez.

Não há como transformar uma mulher que se envolve com os piores homens da cidade em uma águia esperta, capaz de sentir o cheiro de problema a milhas de distância, em um dia. Não se pode pretender que depois de anos de imobilidade e tédio você saia dançando da noite para o dia. Dê um tempo para você mesma, seus sonhos não viram realidade pelo simples querer.

Quem sabe se começar a fazer mudanças simples, que levem no sentido do seu sonho, você não consegue costurar seus trapinhos vermelhos e ter o mais lindo dos sapatos vermelhos do mundo?

Se não pode ir na aula de tango no sábado, quem sabe a aula de samba na quarta à noite? E se todos continuarem rindo, deixe-os rirem. Você vai rir muito mais quando estiver feliz, não vai?

Se a sua noção de namorado ideal é o Bandido da Luz Vermelha, quem sabe você não tenta ao menos namorar alguém que esteja alguns decibéis abaixo em índice de mau caráter?

Tente, de qualquer maneira, fazer algo, nem que seja minúsculo, que leve no sentido de seu sonho verdadeiro. Se preciso, obrigue-se a isto - estabeleça um horário inflexível, nem que seja de 15 minutos diários, para se dedicar aos seus verdadeiros desejos.

E, aos poucos, uma coisa muito boa vai acontecer. À medida que você se esforçar na direção certa, os sapatos falsos de verniz vão parecer cada vez menos importantes, cada vez menos, cada vez menos... até que se tornarão uma miragem distante. Quando isto acontecer, você descobrirá, surpresa, que tem em mãos os seus lindos sapatos de trapos, que VOCÊ fez.

Abertura da história
A lenda
O que ela ensina
Onde estão meus sapatos vermelhos?
Parte 1
Parte 2
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