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Feminino Plural - Terra

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Galápagos

Testemunhei coisas magníficas.
Por isto me parece apropriado
Que agora eu morra,
Ou vá para as Galápagos.

Como criança, brinquei de Deus com as formigas.
Observei e fui observada por uma coruja.
Acreditei em elfos e fadas.
Embora não tenha acreditado em Deus,
Fiz aos seis anos dois contratos com Ele -
E espero que os cumpra.

O primeiro é que, já que não me deu
O único dom que desejei, o da música,
Que me permita ao menos que,
No meu último dia na Terra,
Eu possa ter uma bela voz.
Que me permita cantar
Trechos do "Messias", de Handel.
Que me permita morrer cantando.

O outro é que, já que o sofrimento é inevitável,
Que Ele o concentrasse todo
Nas duas primeiras partes da minha vida.
Acho que Ele o cumpriu -
E, por isto, também
Acho que não viverei muito mais -
Já que agora sou feliz.

Tive minha cota de intenso sofrimento
E de tragédias pessoais.
Agora, não sei bem:
Ou as tragédias acabaram,
Ou não lhes dou a devida atenção.

Como mulher, fiz todas as tolices
Que as mulheres fazem -
E algumas das dos homens.
Apaixonei-me nas mais várias idades.
Enfureci-me com miudezas.
Senti-me bela, ou horrorosa -
Alternadamente, ou ao mesmo tempo.

Chorei sozinha.
Ri sozinha.
Dancei sozinha.

Como membro da espécie humana
Observei meus companheiros de espécie:
Com carinho, com ódio, com amor, com repugnância,
Mas sempre com paixão.
Vi sóbrios homens compartilharem comigo o seu conhecimento
E me oferecerem sua sabedoria
Com a gentileza de adolescentes apaixonados.
Vi doces mulheres permitirem
Que eu levasse seus filhos ao colo,
Que eu os beijasse e acariciasse.
Vi com especial carinho os loucos -
Alguns deles até consentiram
Que eu espiasse seus mundos particulares.

Mas foi como membro da vida,
Como filha da Terra,
Que testemunhei as coisas mais belas.

Vi as Sete Quedas antes de sumirem.
Conheci o Amazonas.
Andei pelas montanhas de Minas.
Fui de São José do Norte até Tavares.
Vi flores abrirem e morrerem.
Segurei em meus braços
Alguns de nossos companheiros de viagem -

Um ramo de árvore,
Um peixe morto,
Um besouro, um gato.
Rocei minha mão pelo tronco das árvores.
Espiei, quieta, os pássaros.
Vi o mar. Vi as serras.
E mesmo sem saber nominá-las
Soube que todas as coisas vivas eram belas
Porque eram imperfeitas.

É por isto que como carne
E me declaro hinduísta -
Duas coisas aparentemente incompatíveis:
Porque testemunhei coisas magníficas,
E agora me parece apropriado
Que eu morra,
Ou vá para as Galápagos.

setembro de 1991 - pouco antes da primavera

(Poesia de autoria de Lígia Gomes Carneiro
reprodução proibida sem autorização.)


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